Não sobre o amor

A memória não respeita as dimensões; espaço, tempo e dor. Vamos ser um pouco cubistas por agora. A nostalgia da casa de onde fui retirado, dos amores que desbotam ao sol, das cartas que jamais deveriam ser lidas.

Duas pessoas, distantes ocupando o mesmo cubo. A luz amarelada sai da janela acima da sua cabeça (ou seria a mesa que está onde não deveria?). A máquina de escrever que desafia o tempo e o espaço, se apresenta desafiadora com seus dentes apontados para o homem. Traz para perto dele sua amada. Seria Alya uma invenção? A falta, não importa do quê, quando dói se torna íntima a ponto de tocar sua pele nua, entre um vestido e outro.

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Não sobre o amor é a última peça da sutil companhia de teatro e acabou de encerrar sua temporada carioca. A obra de Felipe Hirsch, baseada nas cartas de Viktor Shklovsky para sua amada (e também cartas de Mayakovski para Lilya Brik), segue agora para São Paulo.

Você.

Mordia suavemente a borda da superfície negra que se projetava no chão aos meus pés. Como se fosse invisível, manteve este hábito por anos a fio sem que pudesse perceber sua incômoda presença.

Sabia que podia insistir, mesmo que os indícios apontassem para uma derrota. De certo tinha razão e, como um resultado em uma mão de cartas, está agora sentado ao meu lado. Impossível não sentir desconforto ao vê-lo tão de perto. Tem olhos grandes e escuros, que me encaram como se me alertasse da sua próxima jogada.

Dos fins de tarde, sinto falta do desenho que fazia nas calçadas o Sol. Das pessoas recortadas e distorcidas como geometria descritiva, em silhuetas difusas e alongadas.

Feliz aniversário

Diagnóstico dado e me confronto com a súbita explicação de tantos episódios vividos nestes 25 anos. Impossível não imaginar todas as possibilidades desperdiçadas e a obviedade da sentença me frustra ainda mais. A sensação nostálgica de um infinito de quases, que nunca me  permiti, me tirou o sono nos últimos dias.

Queria ter a chance de voltar atrás, tantas vezes fossem necessárias.

Hecatombe intestinal

Pintado na parede no circo voador, em letras vermelhas, está a revelação do fim dos tempos.

Floating fast, like a hummingbird

Se, caminhando pela rua, tropeçasse em um bilhete premiado, a primeira coisa que ia comprar seria uma passagem pra Chicago e os ingressos pras cinco noites onde o Wilco tocará a sua obra completa. Como a sorte tá de mal comigo, estou me contentando com as gravações. O primeiro dia já vazou e é de ouvir de joelhos.

O Wilco foi uma das grandes responsáveis por apresentar caminhos musicais que eu andei escarafunchando nesses últimos anos, ou seja, minha formação musical recente se deve principalmente ao Jeff Tweedy e sua trupe. O disco fundamental pra isso foi “Yankee hotel foxtrot”, que caiu como uma bomba nos ouvidos de boa parte (ou a parte boa) do mundo. Desde a dificuldade em gravar até o resultado, o Wilco é a prova viva que tudo o que se faz com paixão não perde seu espaço nunca mais.

Felicidade maior foi ver o show deles no Tim Festival, lembro até hoje como aqueles que estavam no gargarejo se tornaram irmãos, comungando de um momento mágico. Por um instante formou-se ali uma pequena família, feliz de ver ao vivo uma banda tão querida. Não vejo a hora de repetir a dose, e os shows no Riviera Theatre são aperitivos irresistíveis pra tal. Então, baixa lá!

C41

Dias de chuva sempre deixam as cores mais vibrantes, o mundo parece que acordou revelado em cross-processing. Já me falaram que é por conta da água que vem do céu e filtra a luz do sol, deixando tudo com cara de encarte de cd de banda grunge. O que eu posso dizer é que os dias ficam mais bonitos, e bons de observar em silêncio.

Leva e traz

Taxistas de casas noturnas cariocas, eles sabem de mais coisas do que você gostaria que soubessem. Voltando dia desses, pegamos um táxi e ao citarmos o nome de uma figura clássica da noite alternativa carioca, o taxista começou a desfiar todo o novelo de causos protagonizados pelo sujeito. De um súbito cai a ficha: deve dar uma boa matéria, ou melhor, um documentário sobre essas criaturas que salvam tantas vidas e muitas dignidades mais.

Aforismas

  • I Should Coco deveria ser uma ode à constipação.
  • Desfile de escola de samba é o equivalente ao rock progressivo no carnaval: Solo de bateria e uma só canção por quarenta minutos.

Neguinho é foda

Como um episódio de um seriado surrado, os infortúnios das pequenas distrações da vida sempre se repetem. Lembro bem quando meu master system travou e, por um instante o pequeno coração desse que vos fala deixou-se engasgar. O pânico se instaurou na residência dos Rocha e a criança inconsolável não percebia que a solução estava à um reset de distância. Aquele videogame onde finalmente os meus heróis deixaram de ser polígonos pouco elaborados tinha acabado de congelar e o Alex Kidd, coitado, já tinha perdido no pedra, papel e tesoura.

E lá se foram discmans, computadores que não iniciavam (por conta de um disquete esquecido no drive), uma câmera digital suicida e mais um monte de pequenos sustos. Sempre depois destes acontecimentos, minha relação com meus filhos fica mais leve, deixo-os soltos, sem aquela proteção excessiva que um dia irá prejudicar o garoto quando ele estiver mudando de voz e cheio de espinhas na cara.

Ontem, atravessando a roleta do ônibus ouço um barulho oco, como se algo pesado tivesse ido de encontro ao chão do veículo. Relutei, mas por sorte voltei minha atenção para baixo e, como uma mãe que vê o filho cair no futebol, corri de encontro ao pequeno retângulo preto e cromado. Aquele conjunto de circuitos tinha ganho sua primeira cicatriz. Saudosista, recordo do pobre Alex Kidd congelado na minha tevê 14 polegadas e de comos rimos disso tudo depois. Agora é a sua vez, bem-vindo ao mundo real, neguinho.

Tão eterna

Cidades. Gosto daquelas onde suas qualidades e defeitos se apresentam na mesma intensidade, minha paixão por metrópoles comporta uma dezena. Gosto ainda mais das melancólicas, onde se percebe história em cada cicatriz no asfalto das ruas largas e nos edifícios com dezenas de camadas de tinta. Cascas da cebola urbana, sem isso, não há nada.

Existe algo de misterioso na elegante melancolia de Buenos Aires, algo que me seduz e me faz perder o sono. A cada encontro, festejo como se fosse a última chance na terra de vê-la. A capital porteña é minha eterna amante. Buenos Aires é daquelas cidades marcadas por cicatrizes, como disse Borges, é tão eterna como a água e o ar. Passar uma noite com ela é voltar à vida, com milhares de novas histórias e bifurcações. Cidade ideal para curar feridas, Buenos Aires sabe sofrer. A beleza da sua dor é medida pelo esmero do fileteador ou como o bandoneón chora pelas calles ora cinzentas da mais bela cidade triste, de todas que já visitei.

Como todo aquele que sofre por dentro, a cidade também aprendeu a canalizar sua dor e elaborou com dedicação tudo o que nos alivia o coração: as belas mulheres, a comida excepcional e as artes, todas elas. Parto cansado, com a esperança de reencontrá-la em breve, pois a saudade só aumenta a cada dia que passa.