Sometimes I wish that I could stop you from talking
when I hear the silly things that you say.
I think somebody better put out the big light,
‘cause I can’t stand to see you this way.
E a vontade de encher garrafas vazias, encostadas debaixo da janela.
Cheiro de cloro, dedos enroscados na beirada. Contando frações, me encontro perdido em uma dízima periódica entre azulejos.
A memória não respeita as dimensões; espaço, tempo e dor. Vamos ser um pouco cubistas por agora. A nostalgia da casa de onde fui retirado, dos amores que desbotam ao sol, das cartas que jamais deveriam ser lidas.
Duas pessoas, distantes ocupando o mesmo cubo. A luz amarelada sai da janela acima da sua cabeça (ou seria a mesa que está onde não deveria?). A máquina de escrever que desafia o tempo e o espaço, se apresenta desafiadora com seus dentes apontados para o homem. Traz para perto dele sua amada. Seria Alya uma invenção? A falta, não importa do quê, quando dói se torna íntima a ponto de tocar sua pele nua, entre um vestido e outro.
***
Não sobre o amor é a última peça da sutil companhia de teatro e acabou de encerrar sua temporada carioca. A obra de Felipe Hirsch, baseada nas cartas de Viktor Shklovsky para sua amada (e também cartas de Mayakovski para Lilya Brik), segue agora para São Paulo.
Mordia suavemente a borda da superfície negra que se projetava no chão aos meus pés. Como se fosse invisível, manteve este hábito por anos a fio sem que pudesse perceber sua incômoda presença.
Sabia que podia insistir, mesmo que os indícios apontassem para uma derrota. De certo tinha razão e, como um resultado em uma mão de cartas, está agora sentado ao meu lado. Impossível não sentir desconforto ao vê-lo tão de perto. Tem olhos grandes e escuros, que me encaram como se me alertasse da sua próxima jogada.
Dos fins de tarde, sinto falta do desenho que fazia nas calçadas o Sol. Das pessoas recortadas e distorcidas como geometria descritiva, em silhuetas difusas e alongadas.
Diagnóstico dado e me confronto com a súbita explicação de tantos episódios vividos nestes 25 anos. Impossível não imaginar todas as possibilidades desperdiçadas e a obviedade da sentença me frustra ainda mais. A sensação nostálgica de um infinito de quases, que nunca me permiti, me tirou o sono nos últimos dias.
Queria ter a chance de voltar atrás, tantas vezes fossem necessárias.
Pintado na parede no circo voador, em letras vermelhas, está a revelação do fim dos tempos.
Se, caminhando pela rua, tropeçasse em um bilhete premiado, a primeira coisa que ia comprar seria uma passagem pra Chicago e os ingressos pras cinco noites onde o Wilco tocará a sua obra completa. Como a sorte tá de mal comigo, estou me contentando com as gravações. O primeiro dia já vazou e é de ouvir de joelhos.
O Wilco foi uma das grandes responsáveis por apresentar caminhos musicais que eu andei escarafunchando nesses últimos anos, ou seja, minha formação musical recente se deve principalmente ao Jeff Tweedy e sua trupe. O disco fundamental pra isso foi “Yankee hotel foxtrot”, que caiu como uma bomba nos ouvidos de boa parte (ou a parte boa) do mundo. Desde a dificuldade em gravar até o resultado, o Wilco é a prova viva que tudo o que se faz com paixão não perde seu espaço nunca mais.
Felicidade maior foi ver o show deles no Tim Festival, lembro até hoje como aqueles que estavam no gargarejo se tornaram irmãos, comungando de um momento mágico. Por um instante formou-se ali uma pequena família, feliz de ver ao vivo uma banda tão querida. Não vejo a hora de repetir a dose, e os shows no Riviera Theatre são aperitivos irresistíveis pra tal. Então, baixa lá!
Dias de chuva sempre deixam as cores mais vibrantes, o mundo parece que acordou revelado em cross-processing. Já me falaram que é por conta da água que vem do céu e filtra a luz do sol, deixando tudo com cara de encarte de cd de banda grunge. O que eu posso dizer é que os dias ficam mais bonitos, e bons de observar em silêncio.